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Algar dos Carvalhos - Ficha de cadastro

 

Na sequência da exploração do Algar dos Carvalhos, iniciada em Março de 2011, publicamos agora a ficha de cadastro da cavidade, para conhecimento da comunidade espeleológica. Os trabalhos de exploração ainda não terminaram, pelo que solicitamos àqueles que desejem visitar a gruta que contactem o CEAE, para evitar sobreposição de datas.
 

Aviso AVISO! Espeleologia é uma actividade para espeleólogos. Envolve sérios riscos de ferimento e morte. Mesmo com conhecimento de manobras de progressão vertical, a prática da espeleologia sem a devida formação permanece uma actividade com riscos para os próprios e terceiros, bem como de impactos negativos no ecossistema subterrâneo. Os interessados em praticar espeleologia são veementemente aconselhados a procurar formação adequada em qualquer grupo de espelelogia da FPE e a exercerem a sua actividade no seio desses grupos; não isoladamente.

 

Entrada do Algar dos Carvalhos

Entrada do Algar dos Carvalhos (Fotografia de Sofia Abrantes).

Acesso

Pela N362 (entre Alcanede e Porto de Mós) ao km17, no lugar da Marinha da Mendiga, tomar o caminho que sobe para o Planalto de Sto. António, saindo da estrada nacional junto ao café 'Serra de Aire'. Ao chegar ao topo da subida por este caminho alcatroado há alguns anos atrás, depois da última curva em gancho e cerca de 100m antes da casa do Sr. Vindima (tem o nome no portão), toma-se à esquerda um caminho de terra batida e estaciona-se o carro numa zona larga junto ao desvio para o primeiro moinho. Segue-se a pé pelo mesmo caminho mais 100m; o algar encontra-se 250m para nascente, cerca de 50m depois de um grande eucalipto que cresce sozinho dentro de uma pequena dolina em celha. A boca do algar tem cerca de 1x2m.
 

Esboço topográfico do Algar dos Carvalhos (clicar na imagem para download).

Descrição

Sector superior

O largo poço de entrada, com planta em L, termina numa rampa bastante inclinada. No fundo, encontra-se a desobstrução de Março de 2011, que revelou esta grande cavidade. Uma amarração natural na parede esquerda protege o acesso a este aperto, que se destrepa na sua parte inicial. Um pequeno ressalto 2m abaixo da entrada, fornece uma base de apoio para a montagem do Y numa posição de relativo conforto (aqui, a intensa corrente de ar faz-se sentir). A desobstrução abre passagem sobre a grande diáclase de 45m de fundo, que se desce e percorre em três troços verticais, entrecortados por corrimões.

O primeiro troço, bastante apertado nos primeiros 3 metros, alarga assim que se entra na diáclase. É necessário colocar um protector de corda no final da parte estreita/desobstruída. Aterra-se numa plataforma, 17m abaixo. Um parabolt na parede esquerda dá início ao primeiro corrimão. Aqui, a corda deve ser instalada com folga suficiente para se descer em rappel. Os restantes parabolts do corrimão, já na parede direita, equipam-se normalmente. Novo troço vertical, novo corrimão, agora na parede esquerda, encontra-se equipado em permanente. O último destes troços, permite alcançar não o fundo da diáclase, mas antes um ressalto que dá acesso ao Poço Raul Pedro (pequena homenagem do CEAE ao seu fundador e mentor de uma geração de espeleólogos). Este poço, estreito na cabeceira devido a um grande bloco que o cobre quase totalmente, rapidamente se torna bastante largo, com um fraccionamento sensivelmente a meio.

Grande Diáclase - Equipagem dos corrimões

Grande Diáclase - Equipagem dos corrimões (Fotografia de Pedro Pinto).

Segue-se outro amplo poço (equipagem na parede direita, mas pode ser melhorada com uma montagem em Y), que dá acesso à zona do 'Refeitório', a -115m. Este local é a encruzilhada de onde parte a rede do Poço Pesado (directamente abaixo do poço do Refeitório). Outras três passagens, horizontais, saem daqui: uma para Oeste, dá acesso a um recanto entre blocos, que termina alguns metros adiante; outra na direcção oposta, igualmente sem continuação. Logo à direita desta, parte a passagem que depois de duas pequenas gateiras (novamente, a corrente de ar faz-se sentir) e um ressalto, dá acesso ao Poço do bloco e à continuação para o fundo da cavidade.
 

Cabeceira do Poço do bloco

Cabeceira do Poço do bloco (Fotografia de André Reis).

Sector fundo

O Poço do bloco, escondido à esquerda ao fundo da galeria, é facilmente acedido ao nível do solo. No entanto, a equipagem está um pouco mais alta; um ressalto a esse nível permite montar a corda com facilidade. Este poço é muito propenso a roçamentos: um desviador a -10m (no local de onde um grande bloco instável foi removido), e outro a -15m devem ser instalados com grande atenção, para evitar roços. Abaixo, deve-se descer contornando os abatimentos. No fundo, uma pequena passagem horizontal, permite passar por baixo desses abatimentos e atingir a próxima montagem em Y. A corda anterior deve fazer aproximação a esta montagem.

Seguem-se os Quatro Caminhos. Trata-se de uma zona complexa, um cruzamento de diáclases com grandes blocos e outros abatimentos suspensos a várias alturas, onde se pode continuar a descer por vários locais. Uma plataforma suspensa está equipada em ambos os extremos. A continuação deste sector é na direcção SE, com o equipamento na parede direita (na direcção oposta, a continuação para o Poço poente está equipada em Y).

Descem-se os 7m seguintes (muito húmidos, em tempo de chuvas) até ao fundo ou, em alternativa, fazendo um pêndulo para evitar uma escalada de 2m. Um parabolt na parede direita fornece apoio à chegada do pêndulo e serve de aproximação ao poço seguinte, o Poço nascente.

Montagem de aproximação ao Poço nascente

Montagem de aproximação ao Poço nascente (Fotografia de Pedro Pinto).

A entrada para este poço é estreita. Antes, pode-se instalar uma segurança adicional passando um cordão de Dyneema num furo na parede esquerda. O fraccionamento deste amplo poço, encontra-se a -10m na parede oposta, junto a uma janela que dá acesso ao Meandro nascente. No fundo do poço, uma passagem estreita deve ser descida com atenção (pés à frente), pois desemboca directamente por cima do poço seguinte.

Aqui começa a zona do Spa, com escorrências e gotejamentos constantes que em tempos de chuva podem ser bastante apreciáveis. Na base deste P8, uma série de passos muito estreitos, o último destes descido em rappel, permitem aceder à sala do Spa. Aqui, pode-se entrar num curto meandro à direita (em altura) ou descer novo poço apertado até aos -208m.
 

Meandro nascente

O Meandro nascente é atingido partindo da janela junto ao fraccionamento do poço com o mesmo nome. Um parabolt após a janela é usado para descer 8m apenas (apesar da diáclase continuar para baixo, voltando a unir-se com o poço nascente). Aqui, pode-se percorrer o meando ao longo de 25m, sendo necessário equipar um corrimão para transpor um rebaixamento do chão.
 

Sector poente

Nos 'Quatro Caminhos', seguindo para NW, descer o poço equipado em Y. O acesso ao Poço poente faz-se com um pêndulo para cima de um bloco. Descendo ao fundo do poço anterior, pode-se continuar a descer entre os abatimentos desta zona, até cerca dos -180m. Um poço paralelo pode também ser descido nesta zona, até uma profundidade semelhante.
 

Poço poente

Poço poente (Fotografia de Pedro Pinto).

Sector Poço Pesado

Na zona mais baixa do 'Refeitório', abre-se este tramo. Uma amarração natural no grande bloco que ocupa o centro da galeria e outra numa ponte de pedra por cima do poço fazem a equipagem inicial (protector de corda necessário logo abaixo deste ponto). Desce-se até um primeiro ressalto. Como o parabolt do poço seguinte está um pouco baixo, pode-se usar ao nível da plataforma nova amarração natural. O poço desce em rampa acentuada no início; quando passa a descer a pique deve-se instalar um desviador. Este poço não se desce até ao fundo, mas antes até um ressalto 5m acima deste. Aqui, um passo algo estreito em diáclase leva a um recanto onde se abre um poço, que se equipa em Y. Neste poço, inicialmente muito estreito, tem nova estreitura a -8m; quando volta a alargar, deve-se pendular para atingir uma plataforma (parabolt na parede direita). A cabeceira do próximo poço fica do outro lado de uma janela muito estreita. O poço, bastante largo, termina a -189m depois de alguns ressaltos.
 

Ficha de equipagem

   510m de corda, 61 amarrações
   325m de corda, 41 amarrações (via principal)

SectorZonaObstáculoCordaAmarraçõesObs.
Sector superior
Poço das Gralhas P24 C35 1AN (bloco), 1AN + 1S em Y aprox. à volta de bloco (uma fita grande ou duas médias)
Grande Diáclase P45 C25 1AN, 2PB em Y AN parede esq; protector necessário a -3m; descer até plataforma a -17m (bloco entalado)
CM4 C35 CP, 3PB 1º PB na parede esquerda, seguintes na direita
P26 2PB em Y descer até ao corrimão, a -14m
CM5 C15 CP, 4PB parede esquerda; corda instalada permanentemente; não descer até ao fundo, mas até à plataforma a -3m
P12
Poço Raul Pedro P33 C40 CP, 1PB, 2PB em Y, 1PB (frac) frac. a -17m
Poço do Refeitório P19 C25 1AN (bloco), 2PB fita grande à volta de bloco
Sector fundo + Meandro nascente
Poço do bloco P24 C35 2AN, 2PB, 1PB (desv), 1PB (desv) desv. a -10m (fita curta) e -15m (fita grande); ponta faz aprox. ao poço seg.
Quatro caminhos P16 C35 CP, 2PB em Y protector recomendado
P7 2PB direcção SE; pode fazer-se pêndulo para evitar a escalada
E2 1PB
Poço nascente P29 C40 CP, 1AN, 1PB, 1S (frac) passar cordão de dyneema num furo de broca; protector recomendado; frac. a -10m, parede oposta
Spa P8 C30 1S, 1AN + 1S em Y aprox. começa antes da passagem estreita, na base do Poço Nascente
R2    
P4 1PB  
Poço terminal P8 C10 1PB  
Meandro nascente P16 C15 CP, 1PB* aprox. a partir do frac. do Poço Nascente; descer apenas 8m
CM10 C15 2AN(!), 2S, 1AN(!) a melhorar; spits parede esq; possível descida ao fundo com C15 no 1º spit
S. Poente
Zona inferior dos Quatro Caminhos P10 C15 2PB em Y direcção NW; pêndulo necessário para atingir o Poço poente
Poço poente P29 C40 2PB  
S. Poço Pesado
Poço Pesado P6 C30 2AN protector recomendado
P17 1AN, 1PB*, 1AN (desv) desv. a -9m
Poço do pêndulo P18 C25 2PB* em Y pêndulo a -12m; fixar ponta à montagem seguinte
Poço Pesado 2 P27 C35 CP, 1PB* (aprox), 1PB* janela estreita na entrada do poço
Ressalto terminal P7 C10 1AN(!) montagem precária à volta de bloco de calcite; a melhorar

     * Parabolt 10mm, sem placa

Abreviaturas
AN Amarração natural
CM Corrimão
CP Corda precedente
E Escalada
P Poço
PB Parabolt
R Rampa
S Spit
Observações
Todos os parabolts são de 10mm, com placa, salvo indicação em contrário;
A equipagem da via principal está destacada sobre fundo escuro; trata-se do equipamento mínimo para descer ao ponto mais fundo da gruta, a -208m.
Para protecção da Gralha-de-bico-vermelho, o Algar dos Carvalhos não deve ser visitado durante o período de nidificação, entre os meados de Março e o início de Junho

 

Download da ficha de equipagem
 

Caracterização geológica

O Algar dos Carvalhos abre-se nos calcários do Dogger, numa zona da Serra de S. Bento cortada por várias falhas importantes, de direcção NW-SE. Mais informação aqui.
 

 

Levantamento Espeleológico das Serras de Adiça e Ficalho

Levantamento espeleológico das Serras de Adiça e Ficalho
João Joanaz de Melo & Raul Pedro

CEAE-LPN

 

Resumo

As Serras da Adiça e Ficalho, localizadas na margem esquerda do Rio Guadiana, Concelhos de Serpa e Moura, constituem relevos de rochas carbonatadas no seio de formações xistosas, da Era Paleozóica. Apresentam características estruturais e geomorfológicas importantes no ecossistema local, e invulgares no panorama dos maciços cársicos portugueses.

O CEAE-LPN realizou um levantamento do património natural desta região entre 1988 e 1991, com ênfase na componente espeleológica, tendo continuado a desenvolver trabalhos espeleológicos pontualmente desde então.

Foram até à data identificadas treze cavidades, sendo onze naturais e duas artificiais (minas).

Na sua maioria foram exploradas pela primeira vez pelo CEAE-LPN, nalguns casos envolvendo desobstruções. Muitas destas grutas apresentam interesse significativo ao nível geo- e bioespeleológico. A cavidade mais profunda, o Algar da Chuva, atinge os 61m e apresenta como factor de risco elevados teores de dióxido de carbono. A cavidade mais extensa é o conjunto Cova da Adiça - Algar do Guano, com cerca de 800m de galerias topografadas; localizou-se aqui em tempos uma importante colónia de morcegos, testemunhada por grandes depósitos de guano.

 

Introdução

As serras da Adiça e Ficalho e região envolvente constituem um caso singular no quadro da espeleologia nacional.

Ao contrário de outros maciços calcários, encontramo-nos aqui perante formações geológicas da era Paleozóica. Os afloramentos de rochas carbonatadas são relativamente pouco extensos e confinados aos principais relevos da região, sobressaindo da envolvente dominantemente xistosa por erosão diferencial. A maior parte do complexo carbonatado é constituído por dolomites, menos sensíveis do que os calcários à erosão superficial. Os calcários e dolomites são metamorfoseados e cristalinos, muito fracturados e enrugados, tendo sido obliteradas as diaclases e juntas de estratificação que, nos calcários sedimentares, facilitam a carsificação. A morfologia superficial é pouco desenvolvida, com lapiás raros e pouco extensos, embora profundos nalguns pontos. As dolinas são raras e meramente esboçadas.

Aparecem algares associados a falhas, com bacias de alimentação superficial bem marcadas, atingindo profundidades relativamente grandes. Apesar da insipiência do modelado cársico superficial, ocorre portanto a drenagem da água em profundidade, à semelhança do que acontece em qualquer outro maciço carbonatado.

Devido às características do substrato, a carsificação subterrânea apresenta peculiaridades quando comparada com outras regiões. Desde logo, o desenvolvimento de galerias é muito fortemente condicionado pelas falhas tectónicas, dada a falta de outras estruturas que possibilitem esse desenvolvimento; todas as cavidades naturais detectadas estão instaladas em zonas de falhamento. A água infiltra-se rapidamente em profundidade, originando e beneficiando da existência de grutas, mas é recolhida em fracturas que se prolongam para além das rochas carbonatadas, conduzindo a água para nascentes por vezes a distâncias significativas.

Entre 1989 e 1991 o Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza conduziu um levantamento sistemático dos valores naturais desta região (CEAE 1991). Uma síntese dos resultados desse trabalho foi apresentada no III Congresso Nacional de Espeleologia, incluindo um resumo do inventário espeleológico e biologia cavernícola (R.Pedro & J.Joanaz de Melo 1992). A presente comunicação incide agora na descrição das principais cavidades.

 

Inventário espeleológico

Os estudos desenvolvidos revelaram até à data a existência de 13 grutas, incluindo duas cavidades interligadas com grande desenvolvimento horizontal (Sistema Algar do Guano - Cova da Adiça), 4 grandes verticais com profundidades superiores a 25 m (Algar da Chuva, Algar dos Carvoeiros, Algar da Ferradura e Algar dos Javardos), 5 pequenas verticais com profundidades até 12 m (Algar das Abelhas, Algar da Cabrinha, Algar dos Mosquitos, Algar da Merlinha e Algar do Chouriço) e 2 cavidades de origem artificial (Algar da Lenha e Mina do Grou).

Na tabela 1 apresenta-se uma síntese dos dados espeleométricos das cavidades exploradas.
Na tabela 2 indica-se o número de visitas efectuadas e interesse espeleológico.

Várias das cavidades tiveram que ser desobstruídas, sendo previsível que trabalhos de desobstrução ulteriores venham a permitir desenvolvimentos significativos. É também provável que existam outros ocos subterrâneos localizados preferencialmente em zonas de falhamento, para os quais não foi possível encontrar acesso. O denso matagal que cobre as cristas das serras e o frequente preenchimento sedimentar das caixas de falha dificultam de forma significativa os trabalhos de prospecção.

Tabela 1 — Medidas características das cavidades da área estudada

CAVIDADE

PROFUNDIDADE (m)

DESENVOLVIMENTO DE GALERIAS (m) *

DESENVOLVIMENTO EM PLANTA (m x m) **

1. Algar da Lenha 5 34 24 x 7
2. Mina do Grou 20 54 34 x 3
3. Algar dos Mosquitos 1 4 4 x 2
4. Algar da Cabrinha 2 2 2x1
5. Algar do Guano 18 604 90 x 56
6. Cova da Adiça 19 198 41 x 31
7. Algar dos Javardos 25 36 10 x 6
8. Algar da Chuva 62 75 21 x 12
9. Algar da Ferradura 31 35 10 x 9
10. Algar dos Carvoeiros 34 44 9 x 3
11. Algar da Merlinha 3 3 3 x 1

12. Algar das Abelhas

12 12 3 x 1
13. Algar do Chouriço 6 7 2 x 3

* somatório dos comprimentos da poligonal topografada
** dimensões máxima e perpendicular do desenvolvimento em planta

 

 

Tabela 2 – Interesse espeleológico das cavidades da área estudada

CAVIDADE

VISITAS CEAE 1988-2003

OBSERVAÇÕES
1. Algar da Lenha 2 Cavidade artificial
2. Mina do Grou 2 Artificial – mina de água
3. Algar dos Mosquitos 1 A desobstruir
4. Algar da Cabrinha 1 A desobstruir
5. Algar do Guano 12 Depósito de guano; espeleogénese; biologia
6. Cova da Adiça 12 Abrigo de ginetas e morcegos
7. Algar dos Javardos 1 Morcegos; geomorfologia
8. Algar da Chuva 3 Elevado teor de CO2; morcegos, biologia
9. Algar da Ferradura 3 Biologia: colónia de salamandra dos poços
10. Algar dos Carvoeiros 1 Desobstruído
11. Algar da Merlinha 1 A desobstruir

12. Algar das Abelhas

1 Desobstruído
13. Algar do Chouriço 1 A desobstruir

 

Topografia e estudo geomorfológico

De seguida apresentam-se as topografias das maiores grutas da zona estudada, bem como uma análise geomorfológica das mais importantes.

 

Algar do Guano e Cova da Adiça

O Algar do Guano e Cova da Adiça constituem um sistema subterrâneo único com duas entradas e significativo desenvolvimento horizontal. A cavidade encontra-se numa zona de tectónica complexa, onde se observa a intersecção e conjunção de falhas de diferentes épocas e orientações.

Descida ao algar do Guano

 

Os ocos mais antigos da cavidade devem ter origem numa família de fracturas com orientação entre norte-sul e noroeste-sueste. É bem visível na parede e tecto da galeria grande do guano, uma falha com orientação N56°W e inclinação 47° para sudoeste. Esta é uma falha inversa, em que o lado sudoeste cavalgou o lado nordeste.

Na caixa de falha observam-se concreções de diferentes períodos: concreções antigas apresentam-se rodadas, em posição diferente daquela em que se formaram, ou fracturadas; enquanto concreções mais recentes, formadas sobre as anteriores, se apresentam na posição normal.

Numa fase posterior, o bloco noroeste da falha citada terá sido comprimido e sofrido um esmagamento, que é patente no substrato que enquadra as passagens entre a sala grande do guano e as salas a norte. Neste ponto é visível a confluência de dois planos de falha, a anteriormente descrita e uma segunda; esta tem orientação N78°W e inclinação diferenciada, 72° para norte no tecto e 20° para norte perto do chão. Nesta falha não foi observado microfalhamento nem movimento em escada. A sala extensa e baixa que comunica com a Cova da Adiça terá sido assim originada na caixa desta falha, ou num oco formado por despegamento de materiais.

Outras salas com configuração semelhante no Algar do Guano poderão estar igualmente associadas a este fenómeno, já que não mostram quaisquer indícios de ter sido cavadas por processos de corrosão/erosão hídrica.

Ambas as entradas da cavidade estão instaladas em fracturas de uma outra família, com orientação N72°E. Na Cova da Adiça a fractura inclina 85° para norte e no Algar do Guano 90° para norte.

Para além das falhas referidas, foram identificadas no Algar do Guano outras com as seguintes orientações:
- N68°W com inclinação 45°NE; 
- N58°W com inclinação 55°NW; 
- N64°E com inclinação 68° SSE; 
- N35°W com inclinação 85°E; 
- NS com inclinação 62° E.

Na Cova da Adiça, identificaram-se as seguintes fracturas: 
- Diaclase grande ao fundo da latrina das ginetas — fractura com orientação N2°E e inclinação 62°W; esta fractura terá causado a deslocação por gravidade do grande bloco, que arriou no fundo da sala; 
- Família de fracturas de orientação E-W, notórias ao fundo da sala de entrada; 
- Família secundária de fracturas de orientação NW-SE.

Fracturas concrecionadas

Quanto à espeleogénese da cavidade, há que realçar a sua função de conduta terminal conduzindo a dois ponors emissivos (as entradas da cavidade). No Algar do Guano, parece claro que a abertura da entrada foi cavada de baixo para cima a expensas de uma fractura, com a água sujeita a grande pressão, sendo notórios os vestígios de conduta forçada na sala de entrada. O mesmo mecanismo terá estado na origem da Cova da Adiça; aqui, os vestígios de conduta forçada estão obliterados nos grandes espaços por abatimentos e depósitos sedimentares, mas são bem visíveis nas galerias e chaminés na zona lateral da sala de entrada.

É também óbvio que a cavidade, ao longo de milhões de anos, sofreu períodos alternados de regime hidrológico húmido e seco. Isto é atestado pela frequência de concreções que sofreram erosão mecânica após a sua deposição, nalguns casos com novo concrecionamento; e pela existência de depósitos sedimentares complexos, diferenciados e em parte consolidados, também eles tendo sofrido uma erosão intensa em vários pontos.

Numa fase de maturidade da gruta, ocorreu o fenómeno normal de abatimentos por efeito de erosão em conduta livre nas salas de maior dimensão, sobretudo nos níveis inferiores. No Algar do Guano isto é patente na galeria grande, nas salas sobrepostas do lado leste e na zona profunda de ligação à Cova da Adiça; na Cova da Adiça, os abatimentos são notórios na sala de entrada (embora aqui mais de origem tectónica que hídrica) e na galeria do fundo.

 

Algar da Chuva

O Algar da Chuva é uma grande vertical atingindo 62m de profundidade. A vertical de entrada desenvolve-se numa confluência de falhas, respectivamente com orientações oes-sudoeste-es-nordeste e noroeste-sudeste. A cavidade tem forma helicoidal, rodando no sentido retrógrado à medida que desce, alternando poços e sub-verticais.

A configuração da entrada e as dimensões do poço, em conjunto com a ausência de grandes abatimentos (pelo menos nos níveis superiores do poço) indicam que o algar foi aproveitado como uma zona de infiltração maciça, sendo alargado por erosão mecânica.

Em profundidade (a partir de 40m) existe fracturação desviada da falha principal, que provoca a curiosa configuração helicoidal do algar. Na zona mais profunda explorada, a cerca de 60m, existe uma sala criada pelo mecanismo vulgar de abatimento, podendo o poço continuar abaixo da obstrução. Uma possível continuação é uma goteira de conduta forçada na base do poço, que indica ter existido circulação intensa e acumulação de águas a este nível. Esta observação é concordante com a hipótese de o algar ser um ponto importante de confluência das águas drenadas a níveis superiores e ao longo das falhas.

Não foi possível observar em maior detalhe a parte profunda do algar devido à presença de CO2 com teores que representam riscos significativos para os exploradores.

No conjunto de explorações efectuadas, todas elas em época estival e por isso com condições climatéricas propícias à acumulação de CO2, os sintomas sentidos pelos espeleólogos foram os seguintes: 
- Abaixo dos 6 a 20m (dependendo dos elementos da equipa) — aceleração ligeira do ritmo respiratório; 
- A 35m — taquipneia intensa (todos os elementos da equipa), dores de cabeça (um dos elementos, que teve de regressar de imediato), indisposição e taquicárdia (um dos elementos, que teve de regressar de imediato); 
- A 45m — taquipneia muito intensa e dores de cabeça (todos os elementos da equipa); 
- A 60m — intensificação dos sintomas anteriores e raciocínio lento (apenas um dos elementos da equipa desceu a este nível, em duas explorações, tendo-se demorado menos de 5 minutos em qualquer dos casos).

Ao subir, todos os exploradores experimentarm um alívio progressivo dos sintomas. Após a saída, os elementos menos expostos recuperaram muito rapidamente. Os exploradores mais expostos demoraram várias horas a normalizar as condições fisiológicas (desaparecimento da fadiga e dores de cabeça). Em nenhum caso foram detectadas consequências duradouras.

Embora as reacções sejam bastante variáveis de pessoa para pessoa, todos os sintomas são consistentes com a explicação de intoxicação por CO2. Infelizmente, não foi possível medir as concentrações deste gás no ar.

Não foi detectada falta de oxigénio, já que o esforço da subida não implicou, em nenhum caso, aumento adicional do ritmo respiratório. Não foram detectadas pelo cheiro outras substâncias capazes de provocar reacções de toxicidade (metano, sulfureto de hidrogénio, amoníaco). Apenas, próximo da acumulação de guano, um ligeiro odor amoniacal, aliás muito inferior ao comum em grutas com colónias de morcegos.

O facto de o Algar da Chuva ter uma localização e uma morfologia favoráveis à acumulação de CO2 no seu interior não explica porque se atingem aqui teores de CO2 fora do habitual, fenómeno que não observámos em nenhuma das outras grutas da região. Terá que haver uma fonte de CO2 que não foi possível detectar. A explicação que nos parece mais provável, embora careça de confirmação, é a geração do CO2 estar associada ao termalismo, uma vez que nas proximidades existem nascentes termais.

 

Algar da Ferradura

O Algar da Ferradura é uma vertical com 31m de profundidade e sem desenvolvimentos horizontais penetráveis.

São patentes no Algar da Ferradura várias fases de evolução distintas, relacionadas com as fases tectónicas da região.

O algar desenvolve-se ao longo de uma falha com orientação sensivelmente norte-sul. O plano de falha é oblíquo e tem um mergulho de cerca de 70° para leste até uma profundidade de 25m. Após esta profundidade, o plano sofre uma brusca inflexão, diminuindo o mergulho para 23° e verificando-se uma torção para leste-oeste.

A própria formação da falha pode ter dado origem a folgas ou vazios sucessivos entre o muro e o tecto de falha, que depois terão sido alargados e interligados pela acção corrosiva e erosiva da água. No contacto com a superfície e no interior da gruta são visíveis locais de fricção e esmagamento da rocha, onde as águas actuaram activamente nas zonas de cisalhamento, fracturação e clivagem. A acção química muito intensa, devido à desagregação do substrato, terá originado desde logo a formação de concreções de grande dimensão, que em certos locais obliteraram a própria falha.

Posteriormente, a cavidade terá funcionado como sumidouro, o que é patente na configuração da boca do algar. A existência do sumidouro pode estar associado ao enchimento maciço com depósitos sedimentares, cujos restos são ainda bem visíveis por toda a cavidade.

O preenchimento sedimentar não é uniforme, nem se realizou monotonamente de baixo para cima. Devido à existência de zonas estreitas e à provável ocorrência periódica de obstruções em níveis intermédios (tal como existe hoje em dia uma obstrução aos 31m), a sedimentação predominante de materiais exógenos pode ter tido lugar alternadamente em zonas superficiais e profundas da cavidade.

A antiguidade de tais sedimentos é atestada pela sua compactação e consolidação, patente em vários locais.

Por outro lado, em simultâneo ou alternando com a sedimentação de origem exógena, ocorreu a resconstrução calcítica, frequentemente com recobertura dos sedimentos. Nalguns locais, como a segunda plataforma, a cobertura calcítica é muito espessa (mais de 1m). Neste, como noutros pontos mais abaixo, só resta hoje em dia a capa calcítica, já que a grande massa dos depósitos sedimentares foi erodida e arrastada para níveis inferiores.

Actualmente, o pavimento da sala do fundo do algar é constituído principalmente por blocos, com uma pequena fracção de argilas de descalcificação. Os blocos são, quer de origem superior (desagregação de obstruções mais acima), quer de abatimentos locais que originaram o alteamento da abóbada da sala.

É de referir que as zonas de continuação da falha se encontram em geral obliteradas, quer pelo próprio material da caixa de falha, quer por sedimentos exógenos e/ou formas de reconstrução.

 

Algar dos Carvoeiros e Algar dos Javardos

Os Algares dos Carvoeiros e dos Javardos são cavidades verticais de média dimensão. Para estes não foram feitos estudos geomorfológicos semelhantes aos anteriores, embora o Algar dos Javardos apresente algum interesse neste domínio.

 

Referências

CEAE-LPN (1991). Levantamento do Património Natural das Serras da Adiça e Ficalho — relatório final. Estudo realizado para a CCR Alentejo. 4 volumes, ~ 300 páginas.

Pedro, R. & Melo, J.Joanaz (1992) Valores naturais das Serras da Adiça e Ficalho. III Congresso Nacional de Espeleologia. FPE, Açores, 1-4 Outubro 1992.

 

Agradecimentos

Esta comunicação baseia-se no trabalho multidisciplinar “Levantamento do Património Natural das Serras da Adiça e Ficalho” para o qual colaboraram muitas pessoas e entidades.

Em primeiro lugar, queremos referir os restantes membros da equipa de espeleologia e geologia: Armelim Pires, Carlos Costa, Eunice Soares, Francisco Ourique, Francisco Santos, Gonçalo Almeida, Henrique Carvalho, Joaquim Braga, Luís Miguel Pereira, Manuel Jorge Costa, Paula Trindade, Pedro Canavilhas de Melo, Rui Berkemeier, Tiago Joanaz de Melo, Pedro Pinto, Nuno Pinto, Paulo Camelo, Sérgio Orantos, Pedro Costa, Patrícia Veloso e José Júlio Coelho.

Em segundo lugar, desejamos agradecer às pessoas e entidades que apoiaram a execução do trabalho: Direcção Regional de Ambiente e Recursos Naturais do Alentejo, Câmara Municipal de Serpa, Associação de Defesa do Património de Vila Verde de Ficalho, proprietários e empregados do Restaurante da Boa Vista em Vila Verde de Ficalho, Sr. João Monge; e ainda a Margarida Cabral Joanaz de Melo pelo inestimável apoio na fase de execução do relatório final do projecto.

 

Notas curriculares

João Joanaz de Melo é licenciado e doutorado em Engenharia do Ambiente. É professor de Engenharia do Ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Tem dirigido diversos trabalhos de espeleologia e ambiente, entre outros no âmbito do “Levantamento do Património Natural das Serras de adiça e Ficalho”.

Raul Pedro frequentou o curso de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa. É bancário de profissão. Foi fundador do CEAE-LPN e tem dirigido diversos trabalhos nos domínios da espeleologia e turismo de natureza, incluindo a coordenação geral do “Levantamento do Património Natural das Serras de adiça e Ficalho”.

Auto Estrada - A1 (Torres Novas-Fátima)

A AUTO-ESTRADA TORRES NOVAS - FÁTIMA E O PARQUE NATURAL DAS SERRAS DE AIRE E CANDEEIROS

 

 

RESUMO

Nesta comunicação dá-se conta das preocupações e do trabalho desenvolvido pelo CEAE-LPN (Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza) em relação ao sub-lanço Torres Novas - Fátima da Auto-estrada do Norte e sua interferência com o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Faz-se o historial da situação, uma breve descrição do projecto e seu enquadramento, uma análise sumária dos aspectos espeleológicos e dos impactes ambientais estudados pelo CEAE-LPN, e enunciam-se as posições do CEAE-LPN sobre a matéria.

 

HISTORIAL

Encontram-se em fase adiantada os trabalhos preparatórios com vista à construção do sub-lanço Torres Novas - Fátima da Auto-estrada do Norte, cujo traçado previsto atravessa o PNSAC.

A opção por tal traçado foi tomada pela Junta Autónoma de Estradas (JAE) em 1977, numa época em que o Ambiente estava longe de assumir a importância que hoje se lhe reconhece, e anteriormente à criação do Parque Natural (que se concretizou apenas em 1979). Os estudos então efectuados davam reduzido ênfase às questões ambientais, que tiveram um peso insignificante na escolha do traçado. Para além disso, o Parque Natural veio introduzir um elemento novo, que obviamente não poderia ter sido previamente considerado.

Após a criação do PNSAC, seria lógico que tais estudos fossem revistos e a decisão repensada, com intervenção activa das diferentes entidades interessadas.

No entanto, isto não se verificou. Durante anos, houve apenas uma troca de ofícios e pareceres desgarrados entre o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (SNPRCN), a JAE e outros departamentos do Estado. O SNPRCN pronunciou-se repetidamente contra o projecto, embora sem elaborar nenhum estudo integrado. A JAE ignorou repetidamente tais pareceres e deu indicações à Brisa para avançar com o projecto tal como inicialmente previsto. Apenas em 1986 o Parque Natural foi instalado de facto, e só nessa altura se começou a repensar globalmente a questão. Em Setembro de 1987, foi entregue ao Parque Natural um relatório de avaliação preliminar de impactes ambientais, executado pelo CEAE-LPN. Tal relatório, embora sem aprofundar todas as questões, equacionava os principais problemas levantados e adiantava algumas soluções.

Por seu lado, os serviços do PNSAC têm vindo a estudar propostas alternativas de traçado, fora do Parque Natural.

Entretanto, um conjunto de associações pronunciou-se publicamente contra a forma como o processo tem sido conduzido, e a favor da realização pela Brisa de um Estudo de Impacte Ambiental aprofundado. Entre os subscritores de tal posição contavam-se a Liga para a Protecção da Natureza, o GEOTA-Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, a Quercus-Associação Nacional de Conservação da Natureza, a Federação Portuguesa de Espeleologia, a Associação para a Defesa e Valorização do Património Natural e Cultural da Região de Torres Novas e a Sociedade de Espeleologia e Arqueologia de Torres Novas. Idêntica posição veio mais tarde a ser tomada por outras entidades, incluindo várias associações ambientalistas e grupos de espeleologia.

Por outro lado, a Brisa tem tentado acelerar o processo por forma a não ser obrigada a executar um estudo de impacte ambiental, nos moldes da Directiva 85/337/CEE do Conselho das Comunidades Europeias, a qual entra em vigor a 3 de Julho de 1988.

 

NOTAS SOBRE O PNSAC

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros estende-se pelos distritos de Santarém e Leiria, concelhos de Rio Maior, Alcanena, Torres Novas, Santarém, Vila Nova de Ourém, Porto de Mós e Alcobaça. Tem uma área de 350 km2 e ocupa cerca de 2/3 do Maciço Calcário Estremenho.

Recorde-se que esta é uma região com características muito peculiares, completamente diferente das grandes regiões envolventes: Litoral Oeste, Ribatejo e Beira Baixa. De facto, o Maciço tem uma unidade intrínseca que não é desmentida pelas divisões administrativas. É o maior maciço calcário em Portugal, e aquele onde é mais desenvolvido o modelado cársico típico destas regiões. Foi esta, aliás, uma das razões que levaram à institucionalização do PNSAC.

O Parque Natural possui motivos de grande interesse, como formações geológicas de grande valor, magníficas paisagens, uma flora e fauna características, riqueza em vestígios pré-históricos, grande número de grutas, algumas de grande beleza, bem como uma cultura popular que constitui um importante património regional e nacional. Todo este conjunto traduz notáveis potencialidades económicas, científicas e recreativas.

A região onde se localizará a auto-estrada é de natureza rural, com povoamento pouco denso e concentrado. Em relação à actividade económica, domina largamente a agricultura, sendo ainda muito importante a indústria de curtumes e a pecuária.

 

DESCRIÇÃO DO TRAÇADO

Os nós terminais deste sub-lanço da Auto-estrada situam-se respectivamente: o nó de Torres Novas nas proximidades da povoação de Gouxaria, o nó de Fátima a cerca de 1km a oeste do Santuário.

A partir da Gouxaria, o traçado adoptado pela JAE inflecte para a esquerda, atravessa a EN 243 a oeste de Videla, com a orientação sueste-noroeste; corta o Arrife quase perpendicularmente; passa pelo bordo sudoeste da Serra de Aire, a leste de Minde, onde toma a direcção norte; em seguida, atravessa a EN 360 a leste do Covão do Coelho e segue, até ao nó de Fátima, sensivelmente paralela a esta estrada. Este traçado corta o PNSAC em duas unidades, isolando a Serra de Aire do restante.

O trajecto em estudo pelo PNSAC contornaria o Arrife e a Serra de Aire pelo lado leste e norte, evitando o Parque Natural.

01Troço da Auto-Estrada entre Minde e a Serra de Aire.

 

ASPECTOS ESPELEOLÓGICOS

A região estudada pelo CEAE-LPN, no âmbito dos trabalhos preparatórios do relatório de avaliação preliminar de impactes ambientais, abrangeu cerca de 210 km2, incluindo a zona envolvente dos diferentes traçados possíveis para a auto-estrada.

Em termos de coordenadas cartográficas rectangulares UTM, a zona referida situa-se sensivelmente entre os km 527 a 537 E e 4367 a 4388 N. Desta área, apenas cerca de 110 km2 correspondem ao Maciço Calcário Jurássico, onde se dão os principais fenómenos cársicos, pelo que só esta parte foi efectivamente estudada a fundo em termos espeleológicos.

Foram identificadas ao todo 114 cavidades. Destas, foi possível localizar 94, enquanto das outras 20 não foi possível obter em tempo útil a localização exacta. De entre as grutas localizadas, 58 foram exploradas ou revisitadas pelo CEAE-LPN; as restantes 36 foram tratadas apenas através de informações provenientes de outras fontes (designadamente o PNSAC e a Sociedade Portuguesa de Espeleologia). Para além destes números, há cerca de uma trintena de cavidades cuja existência foi referida pelas populações locais, mas que não foram ainda estudadas. Contando com estas, o número total de grutas conhecidas na zona elevar-se-ia a perto de centena e meia.

As equipas do CEAE-LPN prospectaram sistematicamente várias áreas, entre as quais: todo o percurso adoptado pela JAE, numa faixa de 200m de largura centrada no eixo previsto do traçado; a encosta norte da Serra de Aire; e a zona de Boleiros-Maxieira.

02Algar da Lomba

Na zona entre o Vale da Serra e Moitas Venda passa uma galeria proveniente do Polje de Mira-Minde que conduz ao rio subterrâneo do Almonda. Não é conhecida a sua localização e profundidade exactas, mas é provável que seja na zona das falhas que morrem no Arrife. Não é de pôr de parte a hipótese de, com as escavações para galgar o Arrife, essa galeria ser atingida. Torna-se importante por isso localizá-la com exactidão.

Mais adiante, o traçado passa exactamente sobre a entrada do Algar do Penedo Gordo. Esta cavidade, embora relativamente pequena, desenvolve-se sob a faixa da auto-estrada.

A zona do Covão do Coelho apresenta uma perturbação bastante mais importante, visto que o desaterro nesta zona vai aprofundar o nível topográfico até muito próximo das grandes galerias do Algar da Lomba. É muito possível que sejam atingidas várias galerias. Este facto é tanto mais grave quando esta gruta constitui um dos principais escoamentos da escorrências infiltradas na encosta sudoeste da Serra de Aire, de Vale Alto à depressão do Covão do Coelho. Para além disso, o Algar da Lomba é uma das mais importantes grutas portuguesas a nível espeleológico, quer no campo científico (principalmente no domínio da geoespeleologia) quer no desportivo.

Algar da Lomba Algar da Lomba

Mais adiante, próximo de Maxieira e Boleiros, é atravessada outra zona com intensa carsificação sub-superficial, com alta densidade de grutas.

Em resumo, e em relação ao traçado da JAE, há pelo menos 1 cavidade registada dentro do espaço da via, mais 6 a menos de 100m do eixo da auto-estrada, e ainda várias outras com a boca obstruída. Há ao todo 34 cavidades registadas a menos de 1km do traçado. De uma forma geral, têm desenvolvimento profundo, indicando a hipótese da existência de mais chaminés subterrâneas a pouca distância da superfície e um sistema complexo de drenagem em profundidade.

Parece provável que novas galerias sejam postas a céu aberto pelos trabalhos de escavação, sendo imprevisível a importância de tais cavidades.

 

IMPACTE AMBIENTAL

Se este traçado se concretizar, irá interferir seriamente com o PNSAC.

Discriminam-se em seguida os principais impactes decorrentes da implantação da auto-estrada e respectivas medidas mitigadoras: Geologia. A nível geológico, a situação é extremamente problemática, dadas as inúmeras grutas identificadas e outros indicadores de inadequada estabilidade do substrato rochoso. Este facto acarretará dificuldades acrescidas de construção da auto-estrada. Num traçado fora do PNSAC, tais problemas seriam quase eliminados.

Poluição do ar e ruído. Apenas se podem apontar tendências qualitativas para a poluição do ar, devido à escassez de dados climatológicos. A situação mais preocupante parece ser a zona de Minde devido à probabilidade de concentração de poluentes na depressão fechada do polje de Mira-Minde. Outras zonas potencialmente problemáticas são as subidas do Arrife e dos flancos da Serra de Aire. As medidas possíveis de controle de poluição atmosférica e sonora incluem limites de velocidade para o tráfego e uso de equipamentos redutores das emissões. Num traçado fora do PNSAC, estes problemas seriam bastante menos significativos.

Poluição da água. Devido ao terreno calcário, a escorrência superficial é reduzida e a infiltração muito rápida. Com a presença da auto-estrada, existe um risco real de contaminação dos aquíferos pelas águas de escorrência do pavimento, as quais têm uma carga poluente considerável. É possível no entanto efectuar o seu tratamento.

Algar da Lomba

Ocupação do solo. A ocupação de terrenos de aptidão agrícola não é muito extensa, embora o seja a ocupação de terrenos florestais. Com um traçado fora do PNSAC, a ocupação de solos agrícolas seria maior.

Biota e ecossistemas. Ao atravessar o PNSAC, a auto-estrada criará um efeito de fronteira, o qual se traduz directamente por uma ruptura das populações animais, entre a Serra de Aire e o resto do Parque Natural. Em particular, poderá ser afectado o lince, recentemente descoberto nesta área. Naturalmente, estes problemas não se põem se a auto-estrada não atravessar o PNSAC. As medidas de mitigação dos impactes têm a ver com o planeamento das obras, uso de determinados processos construtivos e monitorização cuidada.

Paisagem. A auto-estrada causará uma ferida na paisagem, que é bastante difícil de ocultar. Cortinas de árvores poderão ser uma medida mitigadora deste efeito. Fora do PNSAC, o problema é muito menos significativo, dado que a auto-estrada se situaria em terrenos não proeminentes. Economia regional e nacional. Em termos regionais e nacionais, a auto-estrada vai trazer benefícios muito importantes, dada a sua importância crucial como eixo de comunicação e factor de desenvolvimento.

Sócio-economia local. A expropriação de terrenos, os trabalhos de construção e o próprio funcionamento da auto-estrada serão negativos para as populações locais. Por outro lado, abrem-se perspectivas em termos de emprego, acessibilidade, turismo e outras actividades económicas. No entanto, o aproveitamento de tais possibilidades está longe de ser simples, sobretudo se se pretender conservar e aproveitar o património cultural local.

Custo da auto-estrada. Com um traçado fora do PNSAC, o custo seria aparentemente maior devido ao maior comprimento da via. Na realidade, a diferença deverá ser pouco significativa, pois na alternativa adoptada pela JAE, as dificuldades do terreno implicarão custos extremamente elevados, que não foram contabilizados de início. Por outro lado, o custo das medidas mitigadoras dos impactes é diminuto, se tais medidas forem equacionadas de início - sendo no entanto mais dispendiosas se a auto-estrada atravessar o Parque Natural.

 

CONCLUSÕES

Desta situação, podemos extrair as seguintes conclusões:
1. Parece francamente favorável a escolha de um traçado que não atravesse o PNSAC, apesar de tal solução também não estar isenta de problemas.
2. Deverão ser adoptadas diversas medidas mitigadoras dos impactes ambientais, no respeitante à construção e operação da auto-estrada.
3. Diversas questões necessitam de estudo mais profundo, nomeadamente a poluição atmosférica, poluição da água, arranjos paisagísticos, sensibilidade dos ecossistemas, técnicas construtivas e levantamentos geológicos.
4. Deverá ser estudado e integrado no projecto da auto-estrada um programa de monitorização da qualidade do ambiente.
5. Deverão ser implementadas formas mais estreitas de troca de informações e cooperação entre as entidades envolvidas - PNSAC, Brisa, JAE, associações ambientalistas e espeleológicas interessadas, etc.
6. As questões acima referidas, entre outras, deveriam ser objecto de um Estudo de Impacte Ambiental. Tal estudo deveria ser apreciado e sujeito a uma audiência pública, no âmbito de um processo de Avaliação do Impacte Ambiental (AIA), nos termos da Lei de Bases do Ambiente, da Directiva 85/337/CEE e de regulamentação já elaborada pelos serviços competentes. Recorde-se que o Governo tem poderes para, a qualquer momento, ordenar a realização de um tal processo de AIA.

 

EQUIPA DE PROJECTO

João Joanaz de Melo – Coordenador Geral
Raul Pedro – Coordenador dos Estudos Geológicos e Espeleológicos
Paula Antão da Silva, Isabel Cristina Silva, Maria dos Santos Correia, Maria Helena Alves, Maria Castilho

 

COLABORADORES PERMANENTES

Francisco Ourique, Manuel Jorge Costa, Rui Taborda, Francisco Falcão Fatela, Cristina Garret, Pedro Canavilhas de Melo, Paula Trindade

 

OUTROS COLABORADORES

Tiago Joanaz de Melo, Nuno Vieira, Nuno Miranda, Fernando Santos, João Paulo Pedrosa, Joaquim Braga, Francisco Santos

 

I CONGRESSO NACIONAL DE ESPELEOLOGIA
Porto de Mós, 1 a 3 de Abril de 1988

Federação Portuguesa de Espeleologia
Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros
Câmara Municipal de Porto de Mós

 

REFERÊNCIAS

• CEAE-LPN, "Avaliação Preliminar de Impactes Ambientais do Sub-lanço Torres Novas-Fátima da Auto-Estrada do Norte - Relatório final", Setembro 1987 (trabalho elaborado pelo CEAE-LPN para o SNPRCN)
• MELO, J. JOANAZ; GASPAR, P. PORTUGAL, Avaliação do Impacte Ambiental (separata especial de O Verde), GEOTA, Abril 1988 

 

SUB-LANÇO TORRES NOVAS - FÁTIMA DA AUTO-ESTRADA DO NORTE
Traçado proposto pela BRISA/JAE
Possível traçado alternativo Limite do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros
Escala: 1/100000

Valores Naturais das Serras de Adiça e Ficalho

VALORES NATURAIS DAS SERRAS DA ADIÇA E FICALHO

 

Resumo

As Serras da Adiça e Ficalho, localizadas na margem esquerda do Rio Guadiana, nos Concelhos de Serpa e Moura, constituem um relevo de rochas carbonatadas no seio de formações xistosas. Apresentam, portanto, características geomorfológicas com grande importância no ecossistema local e invulgares no panorama dos maciços cársicos portugueses.

Com vista ao melhor conhecimento da zona, quer do ponto de vista ecológico, quer do ponto de vista do potencial de desenvolvimento, a Comissão de Coordenação Regional do Alentejo encomendou ao Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza (CEAE-LPN) um levantamento dos valores naturais da área. Os trabalhos de campo decorreram de 1988 a 1991, tendo sido recentemente concluído o relatório final.

Em termos de investigação original, o estudo incidiu nos seguintes aspectos: análise da paisagem, levantamento florístico e faunístico, levantamento espeleológico e identificação de problemas ambientais. Para além disso, foi feita uma revisão da informação já existente em matéria de geologia, fisiografia e meio sócio-económico.

No tocante à espeleologia, foram identificadas doze cavidades, na sua maioria exploradas integralmente pela primeira vez pelas equipas do CEAE. A cavidade mais profunda atinge os 61m; a mais extensa apresenta um desenvolvimento em planta de 56x90m.

Ao longo dos estudos desenvolvidos, foram identificadas particularidades interessantes em diversas cavidades, em matéria de bioespelologia, climatologia e geologia, que merecem um estudo mais aprofundado.

De uma forma geral, o trabalho realizado demonstrou o interesse da zona em matéria de conservação da natureza, e a necessidade de optar por formas de desenvolvimento local não agressivas para o ambiente.

 

1. Introdução

O levantamento do património natural das Serras da Adiça e Ficalho foi solicitado pela Comissão de Coordenação Regional do Alentejo ao CEAE-LPN em finais de 1988. Os trabalhos de campo foram concluídos em Setembro de 1991 e a organização de dados em Dezembro do mesmo ano, embora a edição final do relatório demorasse mais alguns meses.

O estudo do património natural da Adiça e Ficalho destina-se a melhorar a qualidade do ambiente e condições de desenvolvimento desta região. É, pois, um trabalho realizado numa perspectiva de futuro.

O estudo incidiu fundamentalmente nas seguintes matérias: classificação da paisagem e usos do território; levantamento da flora e fauna; relações entre as diferentes componentes do ecossistema; complemento dos levantamentos geológicos e hidrológicos previamente existentes com reconhecimentos de campo, beneficiando em particular da penetração nas grutas; levantamento, topografia e estudo sumário das grutas existentes; identificação das disfunções ambientais e potencial existente, apontando-se caminhos para um melhor aproveitamento dos recursos naturais locais.

 

2. Caracterização geral da área

LOCALIZAÇÃO 

A área estudada encontra-se situada na região vulgarmente conhecida por "margem esquerda do Guadiana", longitude 1°45' a 1°53' W (meridiano de Lisboa) e latitude 37°55' a 38°03' N.

Tem a forma aproximada de um trapézio e uma superfície de cerca de 90 km2 (9000 ha).

Abrange grande parte das freguesias de Vila Verde de Ficalho (Concelho de Serpa) e Sobral da Adiça (Concelho de Moura).
Serra de Ficalho, vista do rio Chainça

 

GEOMORFOLOGIA 

As Serras da Adiça e Ficalho situam-se na grande mancha de terrenos metamórficos que se estende da fronteira (Vila Verde de Ficalho) até Montemor-o-Novo.

Os relevos estão distribuídos em três alinhamentos principais: a oeste, a sequência Malpique (381 m), Savos (356 m) e Calvos (319 m); ao centro, o alinhamento principal, Álamo (425 m), Adiça (476 m) e Ficalho (518 m); a leste, a crista da Preguiça (326 m). As elevações mais importantes são formadas por calcários cristalinos, muito rijos e dolomitizados, apresentando-se muitas vezes cortados por inúmeros veios de quartzo, estabelecendo uma malha coesa e mais resistente que os calcários pré-existentes. Afloram também quartzitos, em quantidades inferiores aos mármores, e observam-se intercalações de rochas brandas, mesmo nas vertentes mais abruptas.

Na parte sudoeste não se observam grandes elevações, porque os calcários estão muito misturados com o xisto, sendo mais facilmente erodíveis, apresentando apenas um relevo movido. As Serras da Adiça e Ficalho têm a sua origem ligada a uma elevação tectónica antiga que, por erosão diferencial, conservou o bloco mais resistente.

A sequência estratigráfica encontra-se estabelecida com a seguinte sucessão de baixo para cima: Série Negra; Série Detrítica; Calcoxistos; Calcários e Dolomites; Rochas Verdes.

CLIMA

O clima é caracterizado por fraca pluviosidade (400 a 500 mm/ano), concentrada nos meses de Inverno, donde resulta um forte défice hídrico durante o Verão. As temperaturas são muito elevadas durante o Verão (temperatura máxima em Julho 45°C) e amenas durante o Inverno (temperatura máxima em Janeiro 26°C), embora com fortes amplitudes térmicas. O clima pode assim ser classificado como mediterrânico de feição continental.

Nos alinhamentos de relevo o clima é amenizado, com precipitações superiores e temperaturas mais baixas. As encostas viradas a norte apresentam maior humidade,originando formações vegetais ligeiramente diferentes.

HIDROLOGIA E GEO-HIDROLOGIA

Devido ao substrato geológico e ao clima, todos os cursos de água da zona são de regime temporário e torrencial, apresentando cheias após grandes chuvadas e secando quase completamente no Verão. Algumas pequenas barragens permitiram a criação de planos de água permanentes, sendo o mais importante o do Monte da Ferradura.

A hidrogeologia regional é controlada pela presença de aquíferos cársicos, que acumulam milhares de metros cúbicos de água. A circulação subterrânea é fortemente condicionada pelas estruturas anticlinais que se desenvolvem entre as falhas da Vidigueira e de Ficalho.

Deste modo, o escoamento subterrâneo dá-se sobretudo no sentido de SE para NW. Oarquífero cársico de Moura-Ficalho constitui um reservatório subterrâneo com 17 hm3 de água anualmente renovados, mais uma quantidade desconhecida de água de circulação muito profunda e lenta, com várias particularidades hidroquímicas e termais.

Dadas as características do aquífero, há que ter cuidado face a agentes poluidores, uma vez que, nas zonas de recarga, sem cobertura de matriz argilosa, a infiltração das águas superficiais é directa, podendo acarretar uma contaminação imediata. Trata-se, portanto, de um aquífero muito vulnerável, e somente o facto de a cidade de Moura se encontrar numa zona essencialmente de descarga explica que não se tenham manifestado, com maior intensidade, situações de contaminação.

MEIO SÓCIO-ECONÓMICO

Nesta área a actividade económica principal é a agricultura, complementada com a pecuária e silvicultura. As culturas dominantes são o olival e as searas, seguido em importância pelo montado com pastagem. A indústria transformadora tem reduzida expressão. A indústria extractiva assume maior importância, nomeadamente a exploração de calcários cristalinos.

A evolução populacional recente caracteriza-se por um decréscimo acentuado da população nas freguesias rurais dos Concelhos de Serpa e Moura, atingindo 20% em Vila Verde de Ficalho e 30% no Sobral da Adiça entre 1970 e 1981. A população é relativamente envelhecida, existindo forte emigração para os centros urbanos próximos (Serpa, Moura, Beja, Évora), bem como para a área metropolitana de Lisboa. Em Ficalho, esta tendência de quebra populacional poderá ser invertida pela existência de uma rodovia internacional. Pelo contrário, o Sobral da Adiça não beneficia desta localização, não sendo previsível a inversão da tendência actual.

 

3. Paisagem

Os aspectos mais marcantes da paisagem da área estudada são, um de carácter cultural — o padrão de uso do solo e o forte peso do olival — e outro de carácter natural — a energia dos relevos mais acentuados — que, quando conjugados, formam um conjunto muito característico.

O forte carácter dos relevos é enfatizado pela sua cobertura com uma pauta ritmada, constante e regular, pela presença de uma espécie arbórea utilizada numa única forma de povoamento — o olival. É sem dúvida o olival, presente em cerca de metade da área, na planície e nas serras, o grande unificador da paisagem, tanto pelo seu valor próprio, como no constraste que impõe em relação à seara e aos montados. Estas duas utilizações do solo, seara e montados, a dualidade básica da paisagem alentejana, mantêm aqui a sua forte personalidade cultural e valor estético que lhe granjearam o estatuto de "ex-libris" da maior parte do Sul do País.

Em toda esta paisagem modelada pelo Homem desde há séculos, os dois gradientes de valor oposto em relação à sua humanização estão presentes nos matos (embora com expressão reduzida no conjunto da área) e nas zonas sociais, marcadas pelos "montes" e pelos aglomerados urbanos marginais: Vila Verde de Ficalho e Sobral da Adiça.

As principais unidades de paisagem são assim:

  • Olival na peneplanície. Ocupa cerca de 2750 ha. É o tipo de paisagem com maiorsuperfície na área estudada, ocorrendo por vezes consorciado com figueiras. Caracteriza-se por uma marcante regularidade na disposição das árvores. É praticado o aproveitamento com culturas arvenses de sequeiro e pastagem.
  • Olival nas serras. Ocupa cerca de 1000 ha. Em termos de ocupação do solo, tem asmesmas características do olival na peneplanície, mas a sua localização torna-ovisualmente mais notório.
  • Montado. Ocupa cerca de 2300 ha. Quase exclusivamente de azinho, apresenta reduzida presença de sobro. Nunca existe nas serras. É praticado o aproveitamento para culturas arvenses de sequeiro e pastagem (gado ovino e caprino).
  • Searas. Ocupam cerca de 1500 ha. São quase só dedicadas à produção de trigo.
  • Matos e mata. Ocupam cerca de 300 ha. Os matos e resquícios de mata constituem aúnica formação vegetal, além do olival, a ocupar as serras, embora com muito menor expressão, e restringidos normalmente às suas partes superiores. São formadossobretudo por espécies termófilas e calcícolas.
  • Policultura. É um tipo de paisagem ligada aos montes (casas de lavoura tradicionais), espalhada um pouco por toda a área estudada. Ocupa áreas muito pequenas. Compreende essencialmente figueiral, vinha e hortejo.
  • Montes (casas de lavoura tradicionais). Os montes aparecem como construçõesdispersas pela área estudada, alguns com dimensão apreciável. Normalmente têm 2-3edifícios de um só piso, com funções de habitação e assento de lavoura, com planta rectangular, pequenas aberturas cobertas a telha e revestimentos de paredes comcaiação simples.
  • Vila Verde de Ficalho. É um núcleo populacional concentrado. Apresenta forma radial a partir de um núcleo, ao longo de ruas e caminhos. Dominam as habitaçõestradicionais; edifícios agrícolas, pequeno comércio e pequena indústria coexistemintegrados no tecido urbano. Os edifícios têm 1-2 pisos cobertos a telha e paredes comcaiação simples.
  • Sobral da Adiça. Núcleo populacional localizado na margem da área estudada,apresenta um carácter marcadamente rural.

 

4. Flora e vegetação

Foram identificadas ao todo duzentas e cinquenta espécies vegetais distribuídas por setenta e três famílias. Das espécies identificadas, quinze não estão referenciadas para o sudeste alentejano, doze têm um elevado interesse botânico, incluindo nove orquideáceas (Orchis italica, Orchis chanpagneuxii, Orchis collina, Ophrys speculum ssp. lusitanica, Ophrys scolopax ssp. scolopax, Ophrys tenthredinifera, Epipactis hellebourine, Serapias vomeraciae, Aceras antropophora, Allium massaessylum, Euphorbia medicaginea e Gagea sp.) e nove são endémicas (duas europeias — Cistus populifolus e Salvia sclareoides — quatro ibéricas — Lavandula luisieri, Lavandula pedunculata, Paeonia broteroi e Leuzea rhaponticaides — e três portuguesas — Centauria vicentina, Prunus spinosa ssp institoides e Ophris speculum ssp lusitanica).

Ecologicamente, as espécies agrupam-se em tipos que reflectem os lugares ecológicos que ocupam. Desta forma definem-se dois grupos de tipos ecológicos:

  • Naturais, onde estão incluídos matos, matas, vegetação ripícola e vegetação das margens das barragens e lagoas (águas paradas);
  • Artificiais, onde a intervenção do homem se faz sentir vincadamente — engloba o olival, o montado de azinho, culturas arvenses (nomeadamente searas), pastagens e pousios.

Os levantamentos florísticos mais detalhados tiveram lugar nos matos e matas, distribuídos por Belmeque, Malpique, Álamo, Adiça e Ficalho. Pode afirmar-se que, geralmente, a diversidade aumenta para o interior dos matos, sendo dominados na periferia pelas cistácias e no interior por plantas de maior porte, como o carrasco (Quercus coccifera). No entanto, a distribuição em mosaico é por demais evidente, já que de levantamento para levantamento a composição florística muda, mais ou menos acentuadamente.

Ficalho apresenta a maior diversidade e o maior número de espécies com valor significativo, a que corresponderá um estádio mais complexo na organização florística; o coberto vegetal aproxima-se do seu óptimo e, consequentemente, de um hipotético equilíbrio (clímax).

No conjunto, trata-se de um complexo intricado de comunidades florísticas, em estados dinâmicos distintos. Os matos constituem verdadeiras ilhas no meio das searas, do montado de azinho e do olival, onde todos estes elementos contribuem para o estabelecimento de uma comunidade animal muito rica.

Em termos fitossociológicos, todas as formações dos matos e matas são enquadráveis na Aliança Ulici argentei - Cistion ladaniferi, incluindo por vezes elementos atribuíveis à série degradativa associada ao clímax do sobreiral (Sanguisorbo agrimonioides - Quercetum suberis). Em termos de associações, de entre as várias identificadas, a mais interessante é a Viburno tini - Querceto cocciferae, localizada nos núcleos de mata da Serra de Ficalho, que consiste numa importante comunidade florística endémica portuguesa e já muito rara no País.

 

5. Fauna

As Serras de Adiça e Ficalho apresentam uma localização estratégica em termos faunísticos.

São simultaneamente uma extensão da fauna da Serra Morena e um reduto da fauna da planície alentejana.

A situação geográfica, o substrato rochoso peculiar, as condições climáticas, o rico coberto vegetal e a estrutura paisagística em mosaico, diversificada e rica em ecotones, conferem às comunidades animais aí existentes um elevado número de nichos ecológicos (por exemplo, a maioria dos carnívoros abriga-se nos matos e alimenta-se na sua periferia ou fora deles). Daí a área estudada apresentar uma riqueza faunística considerável no contexto de Portugal.

Das 58 espécies de mamíferos referenciadas para Portugal, identificaram-se 29 na área estudada.

Os mamíferos de pequeno e médio porte (lagomorfos, carnívoros e artiodáctilos) foram estudados sobretudo por observação de vestígios indicativos e inquérito aos habitantes locais, embora para quase todos tenham sido conseguidas também observações directas.

Inventariaram-se 12 espécies: coelho, lebre, raposa, doninha, fuinha, lontra, texugo, sacarabo, gineta, gato bravo, javali e ainda, possivelmente, o lince ibérico (quanto ao lince, não foi possível confirmar a sua presença regular, sabendo-se apenas que foi recentemente morto um exemplar na área). Merecem especial referência, pela sua relativa raridade, a doninha, a lontra e o lince, embora todos os outros à excepção da raposa e javali apresentem especial interesse conservacionista.

Os micromamíferos (insectívoros e roedores) foram estudados através de armadilhagem, observação directa, inquérito junto das populações locais, identificação de esqueletos e observação de vestígios indicativos. Identificaram-se 10 espécies — ouriço cacheiro, diversas espécies de ratos e ratazanas, toupeira e musaranho. Nenhuma destas espécies é particularmente rara (algumas espécies, como as ratazanas, podem mesmo considerar-se pragas). Em conjunto, no entanto, tem-se uma comunidade razoavelmente rica e importante no conjunto do ecossistema, nomeadamente como base alimentar de carnívoros e rapinas nocturnas.

Os morcegos (quirópteros) foram estudados essencialmente com recurso à captura nas grutas existentes na área estudada, utilizadas como abrigo por estes animais, tendo sido identificadas 4 espécies. Uma das grutas visitadas, o Algar do Guano, terá tido recentemente uma das mais importantes colónias de morcegos do País. A entrada desta gruta foi obstruída por habitantes locais, o que terá ocasionado perturbações graves à colónia e redução das populações presentes na zona. A desobstrução da cavidade, efectuada pelas equipas do CEAE, permitirá eventualmente a sua reutilização pelos morcegos.

Em termos avifaunísticos, a área demonstra uma riqueza considerável: 114 espécies recenseadas. Saliente-se a ocorrência de algumas espécies que merecem uma atenção especial, quer pela sua raridade a nível nacional ou internacional, quer pelo facto de as populações se encontrarem em regressão: águia-cobreira, águia calçada, peneireiro-cinzento, milhafre-real, tartaranhão-caçador, sisão, alcaravão, cegonha-negra, águia-real, grifo, abetarda e grou.

A principal perturbação para a avifauna das Serras da Adiça e Ficalho é a caça. O número de caçadores na região é muito elevado, e a ausência de zonas inacessíveis onde as aves se possam refugiar acentua o impacto da caça. O abate regular de espécies protegidas por lei revela-se particularmente negativo para a avifauna de uma forma geral. Alterações das práticas agrícolas tradicionais nas estepes cerealíferas podem revelar-se profundamente negativas para um conjunto de espécies, de grande valor conservacionista, que frequentam este biótopo.

De entre as 20 espécies de anfíbios e répteis identificadas, uma — rã castanha (Rana iberica) — não parece ter sido antes referida para esta zona. Todas as espécies observadas constam na Convenção de Berna sobre a preservação da vida selvagem e habitats naturais na Europa.

Quanto às espécies piscícolas, o Alto Guadiana e os seus afluentes não apresentam a riqueza ictiológica das zonas mais próximas da foz. Das zonas observadas, o Rio Chança é o local mais importante, quer pela variedade de espécies (6 observadas), quer pela quantidade e dimensões dos indivíduos. É o único local onde se observaram pescarias esporádicas.

 

6. Espeleologia

INVENTÁRIO ESPELEOLÓGICO

O interesse pela área estudada, do ponto de vista espeleológico, foi despoletado pela descoberta recente de cavidades profundas inexploradas. Dada a proximidade das Grutas de Aracena, em Espanha, numa região com características geológicas similares, punha-se a hipótese de existir também na área estudada alguma cavidade com importância semelhante.

A região foi sistematicamente estudada recorrendo às técnicas espeleológicas correntes, tendo sido identificadas 12 cavidades cársicas (grutas). Estas cavidades podem ser classificadas simplificadamente, de acordo com a sua origem e parâmetros espeleométricos:

  • Sistema Algar do Guano - Cova da Adiça, com pequeno desenvolvimento vertical e grande desenvolvimento horizontal;
  • 4 grandes verticais — Algar da Chuva, Algar dos Carvoeiros, Algar da Ferradura e Algar dos Javardos;
  • 4 pequenas verticais — Algar das Abelhas, Algar da Cabrinha, Algar dos Mosquitos e Algar da Merlinha;
  • 2 cavidades de origem artificial — Algar da Lenha e Mina do Grou.

No seu conjunto, estas cavidades fornecem valiosas informações sobre a geomorfologia da zona e sobre a fauna cavernícola, em particular no que toca aos morcegos.

Myotis myotis isolado

 

Individualmente, a cavidade com maior interesse é o sistema Algar do Guano - Cova da Adiça, que apresenta características morfológicas e climáticas invulgares, e contém um dos maiores depósitos de guano em Portugal.

No quadro 1 apresenta-se um inventário espeleológico sumário da área.

Quadro 1 — Inventário espeleológico da área estudada

CÓD. E NOME DA CAVIDADE PROFUNDIDADE (m) DESENVOLV. PLANTA (mxm)
1. Algar da Lenha 5 24 x 7
2. Mina do Grou 20 34 x 3
3. Algar dos Mosquitos 1 3,5 x 1,5
4. Algar da Cabrinha 2 2 x 1
5. Algar do Guano 18 90 x 56
6. Cova da Adiça 19 41 x 31
7. Algar dos Javardos 25 10 x 5,5
8. Algar da Chuva 61 21 x 12
9. Algar da Ferradura 29 10 x 3
10. Algar dos Carvoeiros 34 8,5 x 3
11. Algar da Merlinha 3 3 x 1
12. Algar das Abelhas 12 2,5 x 1

 

MORFOLOGIA CÁRSICA

Comparada com outras regiões do País caracterizadas pela abundância de rochas carbonatadas (Maciço Calcário Estremenho e Barrocal Algarvio, por exemplo), a área estudada não constitui um sistema cársico avançado em termos de morfologia superficial.

Das formas características do modelado cársico superficial, ocorrem:

  • Lapiás, raros e pouco extensos (embora profundos, nalguns pontos);
  • Dolinas, raras e meramente esboçadas;
  • Algares, geralmente associados a falhas, com bacias de alimentação superficial bem marcadas, atingindo profundidades relativamente grandes.
  • O relativo subdesenvolvimento da morfologia superficial terá a ver com factores como:
  • Os afloramentos de rochas carbonatadas são relativamente pouco extensos, enquadrados por outros tipos litológicos e confinados aos principais relevos da região;
  • A maior parte do complexo carbonatado é constituído por dolomites, que são menos sensíveis do que os calcários à erosão superficial;
  • Os calcários e dolomites são metamorfoseados e cristalinos, tendo sido obliteradas estruturas que, nos calcários sedimentares, facilitam a carsificação (diaclases, juntas de estratificação).

Ao nível subterrâneo, existem condutas que atingem razoável profundidade, geralmente associadas a fracturas de origem tectónica (de vários períodos geológicos). Portanto, apesar da insipiência do modelado cársico superficial, ocorre por sistema a drenagem da água em profundidade, à semelhança do que acontece em qualquer outro maciço carbonatado.

No entanto, devido às características do substrato, a carsificação subterrânea apresenta peculiaridades quando comparada com outras regiões. Desde logo, o desenvolvimento de galerias é muito fortemente condicionado pelas falhas tectónicas, dada a falta de outras estruturas que possibilitassem esse desenvolvimento (a estratificação e o diaclasamento antigos foram mascarados pelo metamorfismo). Não ocorrem redes de drenagem horizontais próximas do nível freático que recolham as águas infiltradas e as conduzam para nascentes cársicas.

Todas as cavidades naturais detectadas estão instaladas em zonas de falhamento. A água infiltra-se rapidamente em profundidade, originando e beneficiando da existência de grutas, mas é recolhida em fracturas antigas que se prolongam para além das rochas carbonatadas, conduzindo a água para nascentes em terrenos marginais.

No que toca à morfologia subterrânea, ocorrem nas grutas da região características curiosas e invulgares, devido ao facto de o maciço ser muito antigo e ter sofrido fases alternadas de orogenia, tectonização e carsificação. Citem-se entre outras as seguintes:

  • Fenómenos de erosão profunda sobre formas de reconstrução;
  • Distorção e fracturação de formas de reconstrução, formadas entre dois períodos de acção tectónica afastados no tempo;
  • Preenchimentos sedimentares completamente consolidados e posteriormente erodidos.

Finalmente, há que referir que a penetração nas grutas permitiu a visualização de características geológicas, em particular a existência de falhas, que não são aparentes à superfície e portanto não se encontravam até à data cartografadas.

 

ECOLOGIA CAVERNÍCOLA

As espécies vivas existentes nas cavernas constituem comunidades complexas, apesar das escassas fontes de energia existentes, já que a luz solar aí não chega. A cadeia trófica baseia-se essencialmente em processos de decomposição de matéria orgânica com origem no exterior (guano de morcego, matéria em suspensão arrastada pela água de infiltração, detritos naturais ou artificiais caídos pelas aberturas das grutas), e em processos químico-sintéticos.

Das doze cavidades identificadas, foram seleccionadas cinco que se entendeu merecerem um estudo climático e bioespeleológico: Algar da Lenha, Algar da Chuva, Algar da Ferradura, Algar do Guano e Cova da Adiça. Os estudos biológicos limitaram-se à fauna terrestre observável macroscopicamente.

No Quadro 2 listam-se as espécies animais observadas nas cinco cavidades.

Quadro 2 — Espécies animais identificadas nas grutas da área

GRUPO TAXONOMICO ESPÉCIE ALGAR LENHA ALGAR CHUVA A. FERRADURA ALGAR GUANO COVA ADIÇA
Carnívoros Gineta (Genetta genetta ) - - - sim sim
Quirópteros

Morcego grande de ferradura
(Rhinolophus ferrumequinum)

- - sim sim sim

Morcego pequeno de ferradura
(Rhinolophus hipposideros )

sim - - sim sim

Morcego rateiro grande
(Myotis myotis )

sim - - - sim

Morcego de Scherbers
(Miniopterus schreibersii  )

- - sim sim -
Anfíbios

Salamandra dos poços
(Pleurodele waltl )

- - - sim sim
Sapo corredor (Bufo calamita ) - - sim - -

Sapinho de verrugas verdes
(Pelodites punctatus )

- - - sim sim
Gastrópodes Oxychilus lucidus - - - sim sim
Melanoides  sp. - - - sim sim
Crustáceos Oniscus asellus - sim sim sim sim
Armadillidium sim - - - -
Miriápodes Lithobius forficatus sim - - - sim
Scolopendra cingulata - sim - - -
Aracnídeos Meta bourneti  - sim sim - -
Meta  sp. sim - - sim sim
Opiliões Falangio opilio - sim - - -
Dípteros Culex pipiens sim sim - sim sim
Drosophil  sp. - - - sim sim
Tipula  sp. - sim - - -
Mycomya  sp. sim sim - - -
Himenópteros Ambliteles  sp. - sim - - -
Coleópteros Carabus  sp. sim - sim sim sim
Cychrus  sp. - - - sim -
Blaps gigas - - - sim -
Trox  sp. - - - sim sim
Bryocharis  sp. sim - - sim -
Gabrius  sp. - sim - - -
Philonthus  sp. - sim - - -
Thanatophilus  sp. - sim - - -
Oxytelus tetracarinatus sim - - - -
Cylindronotus  sp. sim - - - -
Pterostichus  sp - - - - sim
Psocópteros Prococerastis  sp. - - - - sim
Lepidópteros Triphosa dubitata - - - sim -
Tinea  sp. - - - - sim
Ácaros Dermacentor  sp. sim - - - -

 

7. Disfunções ambientais

DESTRUIÇÃO DO COBERTO VEGETAL NATURAL

Na área em estudo, a floresta mediterrânica original foi quase completamente erradicada, subsistindo apenas pequenos núcleos em zonas acidentadas a meia encosta das serras. Nas planícies, a floresta foi substituída completamente pelo montado, olival ou searas. Nos topos das serras subsiste o matagal mediterrânico rupícola, dominado por formações arbustivas.

Ora, verifica-se que estes resquícios de matos e mata são críticos para a sobrevivência de muitas das espécies animais e vegetais que conferem a esta região uma invejável riqueza ecológica, e também um valioso potencial económico. O mosaico semi-natural criado pelo Homem, com uma grande diversidade de habitats e explorado com pouca intensidade, possiblitou mesmo o aparecimento de espécies estepárias como o sisão, quase extintas nos seus habitats de origem.

A conservação dos diferentes habitats existentes é um imperativo para a manutenção da diversidade ecológica da área, também pelo seu potencial económico (nomeadamente para a caça, a observação da vida selvagem e a produção de essências aromáticas). Os matos e sobretudo os pequenos núcleos de mata requerem um cuidado especial, pois a sua recuperação é muito lenta ou mesmo impossível. Igualmente a vegetação ribeirinha deve ser protegida, quer para garantir a estabilidade das margens e leito, quer pela sua importância como habitat.

EXTRACÇÃO DE INERTES

Na área estudada, há duas actividades no sector da extracção de inertes que, por motivos diferentes, provocam consideráveis danos ambientais.

Em primeiro lugar, a extracção de areias no Rio Chança. Não existe qualquer método de extracção lógico, sendo a areia simplesmente cavada das margens do rio, em grandes buracos irregulares. Daqui resultam impactes ambientais significativos: destruição da vegetação ripícola, ecologicamente valiosa enquanto habitat diferenciado; poluição das águas com a terra e lodo levantados, com a consequente afectação da fauna e flora ribeirinha, e das potencialidades de pesca; desnudação das margens, facilitando a sua erosão e consequentemente o assoreamento do rio a jusante; perda de valor paisagístico do local.

Nada justifica semelhante método de extracção. As quantidades extraídas são claramente excessivas para o que é suportável pelas características do rio, apesar de pequenas em termos absolutos. O rio pode e deve ser valorizado de outro modo, pois, dada a escassez de planos de água na região, é procurado como local de lazer e recreio. A instalação de pequenos equipamentos de apoio poderia melhorar significativamente as condições de uso deste espaço, o que seria muito mais satisfatório para as populações do que as actuais crateras à beira do rio.

Em segundo lugar, refiram-se as pedreiras a norte de Vila Verde de Ficalho. Se, por um lado, a pedra é um recurso natural valioso, cuja exploração deve ser consentida dentro de limites razoáveis, por outro lado, o actual método de exploração está ao nível do pior que se pratica em Portugal: a exploração tem lugar em frentes de corte excessivamente altas, que deixam barrancos atrás de barrancos; o material rejeitado é empilhado em montes que cobrem a vegetação e as linhas de água; a vegetação e o solo são sumariamente destruídos; não há recuperação paisagística; não há precauções com vista à limitação da poluição atmosférica.

É perfeitamente possível explorar as pedreiras com um programa de recuperação paisagística.

A exploração pode ser feita em socalcos, e as zonas exploradas preenchidas com o material rejeitado, recoberto com solo recuperado e vegetação natural.

Pedreira de calcários cristalinos

 

ABATE DE AZINHO E PRODUÇÃO DE CARVÃO

Em vários locais, o montado de azinho tem vindo a ser abatido ilegalmente para alimentar fornos de carvão vegetal, também eles funcionando ilegalmente. Esta é uma situação grave.

Em primeiro lugar, a destruição do montado, especialmente do montado denso, é ecologicamente perniciosa, pois o montado tem uma função de estabilização climática, mantém uma comunidade ecológica rica, e pode demorar uma centena de anos a recuperar.

Em segundo lugar, os fornos de carvão funcionam sem as adequadas condições de controlo de poluição e segurança, produzindo emissões atmosféricas tóxicas e incomodativas, como monóxido de carbono e metano.

Em terceiro lugar, o desaparecimento do montado dá lugar a ocupações do território como a monocultura de eucalipto, completamente desadequada nesta região. Em quarto lugar, o uso de carvão vegetal de azinho no balanço energético nacional é irrisório, pelo que a sua eliminação não causa qualquer problema.

Por estes motivos, o abate do montado de azinho e sobro e uma das suas principais utilizações, o carvão vegetal, devem ser severamente controlados e sancionados.

EROSÃO NOS TERRENOS AGRÍCOLAS

Um pouco por toda a área estudada foi possível observar ao longo deste trabalho fenómenos erosivos, associados em grande medida a práticas agrícolas incorrectas.

A lavra mecânica, gradagem e queimadas, eventualmente justificáveis na planície, provocam nas zonas declivosas uma mobilização excessiva do solo, já de si pouco espesso. As consequências são especialmente perniciosas quando a lavra é praticada de alto a baixo (em vez de ao longo das curvas de nível). Com as chuvadas torrenciais, o solo é erodido em larga escala, quer por erosão laminar (decapagem de estratos inteiros numa vasta área) quer por erosão ravinar (criação de ravinas profundas por onde se dá o escoamento da água). As consequências são devastadoras para a fertilidade e estrutura do solo.

A erosão tem ainda outros efeitos gravosos: o material mobilizado vai provocar problemas de assoreamento nas linhas de água para onde é descarregado; a ausência de cobertura vegetal do solo diminui a retenção de água da chuva, a infiltração da água no solo, e a recarga dos aquíferos; a ausência de cobertura vegetal permite uma maior velocidade e quantidade do escoamento das águas pluviais, aumentando a amplitude das cheias.

Em zonas muito declivosas, a vegetação natural não deve ser eliminada. É preferível ter matos que protegem o solo e fornecem abrigo à fauna, do que ter campos inférteis, linhas de água assoreadas e cheias frequentes. Em zonas de declive intermédio, é possível uma utilização agrícola se o terreno for armado em socalcos. Alternativas à prática agrícola marginal são o uso florestal (não com espécies de crescimento rápido) e cultivo de plantas aromáticas e medicinais.

CAÇA 

A caça é uma actividade secular nesta região, como aliás em grande parte do País. No entanto, a sua exploração não tem sido a mais racional. A sobre-caça redundou no declínio das principais espécies cinegéticas, que só lentamente recuperam. Recentemente, a criação de zonas de caça turística e associativa veio resolver parcialmente o problema da gestão das espécies cinegéticas. No entanto, criou fortes tensões sociais perante os caçadores sem terra.

Por outro lado, as zonas de caça turística e associativa vieram exacerbar um problema antigo: o massacre dos predadores considerados "nocivos". É antiga a convicção popular de que os predadores são competidores do Homem na sua actividade cinegética. Qualquer estudioso de ecologia sabe que isto é falso: um ecossistema rico é aquele em que abundam os predadores que, aliás, tendem a eliminar os animais velhos e doentes, ao contrário do predador humano, que tem preferência por troféus gordos e de saúde.

A eliminação de predadores nas zonas de caça, podendo no imediato representar um lucro ou um número de peças cinegéticas um pouco maior, conduz inevitavelmente a médio prazo a um empobrecimento e menor resistência do ecossistema. Note-se que estes predadores, popularmente ainda vistos como "nocivos", são na sua maioria espécies raras e legalmente protegidas, por legislação nacional e comunitária. Além disso, têm uma utilidade objectiva: limitam a proliferação de espécies como a ratazana que, estas sim, são verdadeiras pragas.

Infelizmente, a ignorância mantém-se entre as populações, caçadores e proprietários. Os antigos "bicheiros", ou caçadores de predadores, mantêm-se em actividade, agora contratados pelas zonas de caça, mais ou menos clandestinamente; frequentemente contra o parecer das empresas especializadas que prestam apoio técnico às coutadas. Quanto aos caçadores, muitos deles não têm formação adequada e atiram a tudo o que se mexe.

Para pôr cobro a esta situação, haveria que actuar a diferentes níveis: realizar uma campanha de educação ambiental maciça junto dos proprietários, caçadores e moradores locais; promover uma fiscalização séria e sistemática das práticas de gestão das zonas de caça, em especial no que toca ao controlo de predadores; fiscalizar devidamente os caçadores; promover outras formas de aproveitamento da fauna, por exemplo safaris fotográficos.

 

8. Conclusões

A conclusão fundamental deste trabalho é que a região das Serras da Adiça e Ficalho contém um património natural de grande valor. Alguns elementos são particularmente sensíveis e há que tomar medidas de protecção para os salvaguardar. Por outro lado, estes valores naturais podem ser explorados e rentabilizados sem se degradarem.

A área estudada apresenta uma paisagem humanizada de grande beleza, em que a intervenção humana secular e os resquícios de coberto vegetal natural se combinam harmoniosamente. Do ponto de vista faunístico e florístico, é uma região de grande valor e apreciável diversidade ecológica. Residem aqui múltiplas espécies raras, ameaçadas e com estatuto de protecção, que importa conservar.

Ao nível do coberto vegetal e uso do solo, há três habitats que ocupam uma pequena área mas requerem uma protecção especial e efectiva: os pequenos núcleos de mata, os matos das serras e a vegetação ripícola. Habitats humanizados, como o montado e as searas, devem ser geridos tendo em conta a diversidade ecológica e paisagística que proporcionam.

Para a fauna, o factor mais importante de conservação é a manutenção do habitat, em especial a preservação do coberto vegetal. Adicionalmente, para as espécies raras, em especial os predadores, há que tomar medidas activas de protecção contra a caça desregrada.

As características geológicas da região são invulgares no quadro português. Ocorrem diversas grutas com significativo interesse espeleológico, quer do ponto de vista da morfologia cársica, quer ao nível biológico. É possível que estejam por descobrir ainda outras com maior interesse.

Foram identificadas disfunções ambientais, que põem em risco o património natural existente: ameaças ao coberto vegetal natural, extracção de inertes de modo indevido, abate de montado de azinho para produção de carvão, erosão devido a práticas agrícolas inadequadas, e métodos de gestão cinegética ilegais e perniciosos.

A resolução destes problemas, para a qual foram apontadas algumas pistas, permitirá um desenvolvimento mais equilibrado da região.

 

Agradecimentos

Esta comunicação baseia-se num trabalho extenso e multidisciplinar, para o qual colaboraram muitas pessoas e entidades, cujo mérito importa reconhecer.

Em primeiro lugar, queremos referir os restantes membros da equipa de projecto: Armelim Pires, Bruno Gomes Santos, Carlos Costa, Eunice Soares, Francisco Ourique, Francisco Santos, Gonçalo Almeida, Henrique Carvalho, Joaquim Braga, Jorge Cancela, Jorge Cabeço Gonçalves, Luís Miguel Pereira, Manuel Jorge Costa, Paula Trindade, Paulo Xavier Catry, Paulo Ferreira, Pedro Canavilhas de Melo, Rui Berkemeier e Tiago Joanaz de Melo.

Em segundo lugar, desejamos agradecer às pessoas e entidades que mais apoiaram a execução do trabalho: Direcção Regional de Ambiente e Recursos Naturais do Alentejo e sua directora Drª Lina Jan, Câmara Municipal de Serpa e seu Presidente, Associação de Defesa do Património de Vila Verde de Ficalho, proprietários e empregados do Restaurante da Boa Vista em Vila Verde de Ficalho, Drª Luísa Rodrigues e Prof. Jorge Palmeirim, Sr. Vítor Castelhano, Sr. João Monge, Biblioteca-Museu de Vila Verde de Ficalho e seus responsáveis, Dr. Francisco Valente Machado, Dr. Bartolomeu Rodrigues, Sr. Armando Sebastião, funcionários da Junta de Freguesia de Sobral da Adiça, Dr. João Dinis, Sr. Manuel Carlota, ao falecido Sr. Leitão e a Margarida Cabral Joanaz de Melo.

III Congresso Nacional de Espeleologia
Angra do Heroísmo, Açores, 1-4 Outubro 1992
Autores: Raul Pires Pedro e João Joanaz de Melo
Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza
Morada: Estrada Calhariz de Benfica, 187, 1500 LISBOA

 

Referências

CEAE-LPN (1991). Levantamento do Património Natural das Serras da Adiça e Ficalho — relatório final. Estudo realizado para a CCR Alentejo. 4 volumes, cerca de 300 páginas. (A bibliografia completa consta no relatório supracitado)

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